Quando estudamos
moda, sempre nos deparamos com o dilema:
moda é arte? Muitos estilistas, como YSL e sua coleção
Mondrian, Elsa Schiaparelli e sua convivência com os surrealistas, entre outros, apropriaram-se da
arte na moda. Sem entrar nesta discussão, podemos, entretanto, nos perguntar:
o que é arte?
De acordo com o grego
Aristóteles, a
arte imita a vida, sendo a catarse um componente essencial da arte. Catarse é a purificação através do sofrimento e sua presença é marcante, nas tragédias gregas, como, por exemplo, Édipo Rei. Nesses textos, há situações de extremo sofrimento, que contagiam a plateia, a qual, por sua vez, identifica-se com o que está sendo abordado, ficticiamente (?). Durante o desenrolar da ação, cria-se um estado de espera, onde todos são contagiados e sofrem (muito!). E esse sofrimento extremo, que é similar ao vivido na realidade, “suga” a atenção da plateia até que venha o fim. Com ele, vem o “suspiro final”, o alívio. É como se um peso enorme tivesse sido arrancado dos ombros das pessoas que estavam assistindo ao espetáculo. Com isso, percebe-se que, para esse tipo de estética, a plateia que vê é a que purga, como um todo. Não há diferenças de classe, geográfica, econômica ou cultural. Para esse tipo de arte, todos são iguais, perante a obra, e recebem, por conseguinte, a mesma carga.
Inversamente, na obra engajada ou militante, de
Brecht e Sartre, a
arte existe para provocar a (re)ação. Não deve haver plateia passiva e, muito menos, um todo. A arte engajada preconiza a individualidade, a existência de classes distintas. Para ela, todos são diferentes e não, uma massa disforme. Nesse caso, o espectador deve reconhecer-se, na obra, como indivíduo e não, como parte de um todo homogêneo. Ele precisa identificar-se para só então, (re)agir, questionar, tentar modificar a situação vigente, que o massacra, oprime.
Ou seja, a
arte baseada na catarse e a engajada são diametralmente opostas, no que tange à leitura de ambas: uma exige o
todo; a outra, o
um. Escolha a sua.
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Fotos: British Museum, Londres
Para Nietzsche, a arte é o sentido da vida. E, ao descrever o fenômeno estético, ele irá buscar, na antiga (e não velha!) Grécia e nos seus mitos, elementos que possam explicar o movimento pendular da estética. Encontrará então, duas forças opostas. Uma, baseada no mito de Apolo, o deus-sol, a luz do Olimpo. Apolo, segundo a mitologia grega, era o símbolo da perfeição e da razão. Em oposição, o mito de Dioniso, que evoca o prazer. A partir daí, ele consegue descrever o fenômeno estético como um confronto, travado, silenciosa ou abertamente, entre forças, igualmente importantes, mas que terão maior ou menor intensidade, nos diferentes movimentos de arte. E, como uma balança, quando uma dessas forças eleva-se, a outra decai. Por exemplo, no Realismo, Apolo vence e, com ele, a razão. Já no Romantismo, é Dioniso quem está forte, ou seja, a emoção vence a razão, o prazer ganha da perfeição.
Entretanto, Freud e Marx também descreveram, cada um à sua maneira, o fenômeno estético da arte. Estes, junto com Nietzsche, formam os pilares da cultura moderna. Para Freud, a arte é sublimação. Ela é responsável pela compensação do desejo sexual (libido) reprimido, que irá encontrar, na arte, um canal de expressão; é o manifesto versus o oculto. Já para Marx, a arte faz parte de uma supraestrutura, ou seja, ela advém da pressuposta existência de uma infraestrutura, que a influenciará e poderá também ser realimentada pela arte.

Apesar das diferentes posições, Aristóteles, Brecht e Sartre, assim como, Nietzsche, Freud e Marx descreveram o indescritível: a arte.
Para vocês, o que é arte?
***Mais links de arte e moda:
O sensacional V&A
A moda sai da quadra…
Outras civilizações
As saias do Musée d’Orsay
A roupa do imperador
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