segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

in Fashion... E a arte?

Quando estudamos moda, sempre nos deparamos com o dilema: moda é arte? Muitos estilistas, como YSL e sua coleção Mondrian, Elsa Schiaparelli e sua convivência com os surrealistas, entre outros, apropriaram-se da arte na moda. Sem entrar nesta discussão, podemos, entretanto, nos perguntar: o que é arte?

De acordo com o grego Aristóteles, a arte imita a vida, sendo a catarse um componente essencial da arte. Catarse é a purificação através do sofrimento e sua presença é marcante, nas tragédias gregas, como, por exemplo, Édipo Rei. Nesses textos, há situações de extremo sofrimento, que contagiam a plateia, a qual, por sua vez, identifica-se com o que está sendo abordado, ficticiamente (?). Durante o desenrolar da ação, cria-se um estado de espera, onde todos são contagiados e sofrem (muito!). E esse sofrimento extremo, que é similar ao vivido na realidade, “suga” a atenção da plateia até que venha o fim. Com ele, vem o “suspiro final”, o alívio. É como se um peso enorme tivesse sido arrancado dos ombros das pessoas que estavam assistindo ao espetáculo. Com isso, percebe-se que, para esse tipo de estética, a plateia que vê é a que purga, como um todo. Não há diferenças de classe, geográfica, econômica ou cultural. Para esse tipo de arte, todos são iguais, perante a obra, e recebem, por conseguinte, a mesma carga.

Inversamente, na obra engajada ou militante, de Brecht e Sartre, a arte existe para provocar a (re)ação. Não deve haver plateia passiva e, muito menos, um todo. A arte engajada preconiza a individualidade, a existência de classes distintas. Para ela, todos são diferentes e não, uma massa disforme. Nesse caso, o espectador deve reconhecer-se, na obra, como indivíduo e não, como parte de um todo homogêneo. Ele precisa identificar-se para só então, (re)agir, questionar, tentar modificar a situação vigente, que o massacra, oprime.

Ou seja, a arte baseada na catarse e a engajada são diametralmente opostas, no que tange à leitura de ambas: uma exige o todo; a outra, o um. Escolha a sua.


Fotos: British Museum, Londres


Para Nietzsche, a arte é o sentido da vida. E, ao descrever o fenômeno estético, ele irá buscar, na antiga (e não velha!) Grécia e nos seus mitos, elementos que possam explicar o movimento pendular da estética. Encontrará então, duas forças opostas. Uma, baseada no mito de Apolo, o deus-sol, a luz do Olimpo. Apolo, segundo a mitologia grega, era o símbolo da perfeição e da razão. Em oposição, o mito de Dioniso, que evoca o prazer. A partir daí, ele consegue descrever o fenômeno estético como um confronto, travado, silenciosa ou abertamente, entre forças, igualmente importantes, mas que terão maior ou menor intensidade, nos diferentes movimentos de arte. E, como uma balança, quando uma dessas forças eleva-se, a outra decai. Por exemplo, no Realismo, Apolo vence e, com ele, a razão. Já no Romantismo, é Dioniso quem está forte, ou seja, a emoção vence a razão, o prazer ganha da perfeição.

Entretanto, Freud e Marx também descreveram, cada um à sua maneira, o fenômeno estético da arte. Estes, junto com Nietzsche, formam os pilares da cultura moderna. Para Freud, a arte é sublimação. Ela é responsável pela compensação do desejo sexual (libido) reprimido, que irá encontrar, na arte, um canal de expressão; é o manifesto versus o oculto. Já para Marx, a arte faz parte de uma supraestrutura, ou seja, ela advém da pressuposta existência de uma infraestrutura, que a influenciará e poderá também ser realimentada pela arte.



Apesar das diferentes posições, Aristóteles, Brecht e Sartre, assim como, Nietzsche, Freud e Marx descreveram o indescritível: a arte.

Para vocês, o que é arte?

***Mais links de arte e moda:
O sensacional V&A
A moda sai da quadra…
Outras civilizações
As saias do Musée d’Orsay
A roupa do imperador
***

15 comentários:

Graziele Pacheco disse...

Tudo bem... marcaremos!!
Claudia, eu encaro a arte como humanizadora, como algo que nos eleva como pessoa.
Ela nos permite sentir em mundo totalmente frio e tecnologico, ela nos permite amar, educar, abrir os olhos de muitos!
Ela é o reflexo em nossas vidas de um Deus extremamente criativo, que faz de um por-do-sol uma cena linda, nos dando assim esperança de que o melhor ainda está por vir!!
Bjos, linda.
=)

Veronica Fantoni disse...

Ui, deu aula de arte agora hein!! Pensadores, filosofia e tudo mais... Sempre bom te ler! Bjs

brasildobem disse...

Claudinha muito show essa aula sobre o conceito de arte na visão de alguns filósofos. Parabéns pela rica postagem!
Bjs.
Janeisa

Cy disse...

oi!!!
visitar museus é essencial, na minha opinião! o british é um dos mais bonitos que já visitei.

olha só: qdo tiver um tempinho, dá uma olhada neste flickr. tem fotos de cidades da europa e o proprietário coloca o nome de cada estátua, de cada quadro, cataloga tudo!

http://www.flickr.com/photos/wallyg/collections/72157594587911297/


bjss
cy

Ana B. disse...

Cláudia,
Gosto muito do texto do Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray, em que ele afirma que "toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Na realidade, a arte refleto o espectador e não a de ter vida.Podemos perdoar o homem por ter feito uma coisa útil, contanto que não a admire.A única desculpa de ter feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente. Toda arte é completamente inútil."
Esta é uma afirmação polêmica e que sempre provoca reações em quem a ouve.Entretanto, gosto de pensar na arte sem o peso da obrigação de ser útil, mas apenas com o dom da beleza.
Um super beijo!

(¯`·._.·[***Celina***]·._.·´¯) disse...

Oiii Claudinha, que bom vê-la de volta lá no meu cantinho. Olha, esse seu post é uma verdadeira aula, voltarei com tempo pra ler com calma.
Bjobjo e obrigada pelo comment. Todo sucesso do mundo pra vc tbm.

Karine disse...

Pra mim,arte é estilo de vida.Arte é beleza,sentimentos,bons ou ruins,expressos,palpáveis,nítidos.

Eu AMO tudo que é arte.
Nos meus testes vocacionais,sempre deu que eu era uma pessoa "artística",pra desespero do meu pai,é claro.Huhauahua..Nada de Médica ou Engenheira,coitadinho..

Ah..Mas,enfim,parte de mim se traduz em arte.Por isso,me identifico tanto com esse lugar aqui.

;)

Um beijinho,Cláudia.

Patricia de Camargo disse...

Adorei estas reflexões! Como é bom ver textos de tanta qualidade na blogosfera!
Beijos

Valéria Martins disse...

Ah!... Eu também tenho lindas fotos no British, foi lugar muito importante da minha viagem a London. Valeu!
Bjs

Diane disse...

Those statues are breathtaking...

Sandra disse...

Sábado agora eu vou na PINACOTECA aqui em São Paulo,e vou substituir a sua pergunta para "quando há arte?
Mas,essa semana começou bem hein,...recheada de selos,
e quero compartilhar com vc outro selo ,
passa lá no meu blog pra pegar,é seu!
com muito carinho "SEMPRE"
da SANDRA

Faby disse...

Falar sobre o que é arte é um assunto sempre denso mas incansável...
gostei do texto!
Beijos
Faby

Andrea Guim disse...

Oi, Claudia!!!
Uau, que post fantástico!!! Adoro este questionamento sobre o que é arte. Na facul o debate pegava fogo em História da Arte VI - Contemporânea. E, principalmente, adoro quando alguém comenta no Blog'Arte que não gostou de algo, demonstrando que não ficou passivo ao que mostrei.
Bjs!

Lúcia disse...

Eu sou bem 'liberal' quanto à arte, pra mim tudo é arte, rsrsrsrs, sem dúvida relaciono principalmente com a criatividade daquilo que agrada aos olhos. Bjins

Cristina Uetake disse...

Arte e moda andam juntas, não é mesmo Claudia? Basta olhar as coleções, os estilistas e suas inspirações. Todo um trabalho de pesquisa! Eu adorava as aulas de História da Arte quando fazia facul! Eu amo Marc Chagall... Bjuuuuuuus